Mucas


LAR, DOCE LAR.


Nenhum lugar no mundo é melhor do que a casa da gente.

Por menor que seja, independente do bairro, da distância, seja casa ou apartamento.

É nosso cantinho. Lá quem manda é a gente. Ali você faz o que lhe dá na telha.

Dentro de casa governamos nossas próprias vidas.

Nós mantemos uma relação de intimidade com os cômodos de nossa residência.

E isso é tão intenso a ponto de sentirmos saudade de casa.

Quando a gente viaja, pode ser aquela viagem dos sonhos, vai chegar uma hora que você vai pensar:

"Que saudade da minha casinha". "Ai, meu apêzinho, logo, logo eu tô de volta."

Você tá lá num hotel 5 estrelas, cama King-Size americana, travesseiro com pluma de ganso, lençóis de tecido egípcio...

Nos primeiros dias, você acha tudo deslumbrante, mas, depois da segunda semana, você tá louco para abraçar seu velho travesseirinho.

Sem falar que durante a viagem sempre surge aquela preocupação típica das mulheres...

"Será que está tudo bem lá em casa" ?

Aí começa o interrogatório ao marido:

"Você trancou todas as portas, fechou as janelas? Colocou o cadeado no portão? A luz da sala ficou acesa? Tem certeza? Tem certeza mesmo?"

Depois de jurar de pés juntos que tomou todas as providências, ela vai continuar desconfiada.

E, antes que você fale uma frase qualquer para tranqüilizá-la, ela já estará com o celular na mão:

"Mãe? Sou eu. A senhora não poderia dar um pulinho lá em casa só pra ver se tá tudo bem?"

O nosso doce lar é assim mesmo, suscita essas reações de afetividade.

Mesmo no trabalho, sobretudo naqueles dias em que você não pára nem para tomar um gole d'água, o pensamento é um só.

"Não vejo a hora de chegar em casa".

Ao entrar e passar a chave na porta, você sente uma espécie de alívio, de conforto, de liberdade.

Quantas vezes você não chegou em casa, jogou a bolsa ou pasta na poltrona e desabou no sofá.

"Ufa, finalmente cheguei".

Depois desse desafogo, a primeira coisa a fazer é procurar o controle remoto da televisão.

Era para ele estar no lugar que você sempre deixa, mas, como uma mágica, o controle da TV some.

Na estante tem meia dúzia de controles remotos, o do mini-system, do DVD, da TV a cabo, do antigo videocassete, menos o da televisão.

E revira almofada, abre gaveta, olha nas fendas do sofá, debaixo do pufe ... até que você desiste e repete o grito de toda noite:

"Cadê o controle remoto??!!!"

Depois disso, alguém da família aparece com o controle na mão dando explicações, aparentemente, sem sentido:

"Eu esqueci o controle no banheiro, eu levei por engano para a cozinha, estava na gaveta do escritório".

Aí você se estica no sofá e fica zapeando.

Quando você pára no canal de esportes, não dá tempo de ver nem o primeiro gol que a mulher grita lá da cozinha.

"Você não vai tomar banho, não?"

Quando você sai do banho e volta para a sala de TV, o que acontece?

Ela está lá no seu lugar do sofá vidrada na novela.

Aí esquece... Se não tiver outra televisão na casa, o jeito é assistir o folhetim.

Existem muitos homens que gostam de novela e até comentam a trama com a mulher durante o comercial.

Mas tem aquele sujeito que não sabe nem o nome da atriz principal, mas, como não gosta de ficar de escanteio, começa a fazer perguntas:

"Quem é essa aí? Por que ela tá chorando? Esse ator não tinha morrido? Cadê o Francisco Cuoco?"

Depois da milésima pergunta, todas sem resposta, finalmente uma manifestação da mulher.

"Deixa eu ver a novela!"

Aí você fica mudo. Continua na sala só de raiva. Sem dar um pio. Nem no reclame. Calado o tempo todo.

Quando acaba a novela, o jantar é servido e, como a fome à essa altura é abissal, ouve-se apenas o tilintar dos talheres.

Mas nada como uma sobremesa para quebrar o clima e adoçar a noite estremecida pela novela e os programas de esporte.

Entre uma colherada e outra ela te dá o controle remoto e você clica no canal de esporte.

Aí quem faz as perguntas é ela:

"Que time é esse? Esse tal de Robinho não é aquele filho do Pelé? Quando o Palmeiras vai jogar com o Corinthians?"

Ao invés de resposta, ela ouve uma pergunta:

"Não dá pra pegar uma cervejinha pra mim?"

Além de não pegar a cerveja, a mulher vai para o quarto ler.

Depois de um tempo, o homem acorda assustado com um chamado vindo do quarto.

"Ôh, Fulano, você não vem dormir não? Ou já dormiu?"

 Bocejando, esfregando os olhos e olhando para o relógio o homem diz:

"Quem dormiu? Eu? Claro que não. Já tô indo..."

E aí, depois de escovar os dentes, só porque ela insistiu, ele finalmente vai para a cama.

Antes de dormir, abraçados carinhosamente, os dois percebem porque o Lar é sempre o doce Lar.



Escrito por Mucas às 11h17
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A avenida Paulista está vivendo um conto de fadas tal qual o da Cinderela.

A diferença é que a via mais importante de São Paulo vira abóbora diariamente e antes da meia-noite.

Basta anoitecer para que a avenida Paulista se transforme numa babilônia gastronômica clandestina.

Coreanos preparam yakissoba em panelas trazidas de Xangai.

Japoneses vendem pamonha com a chancela de Piracicaba.

Chineses oferecem pastel com massa de receita portuguesa.

Africanos anunciam tapiocas com ingredientes do Pará.

Romenos comandam barraquinhas de pizza com molho italiano.

Armênios seduzem a clientela com cocadas made in Bahia.

Chilenos comercializam chocolate com pimenta da Índia.

Ao cair da noite, a avenida Paulista é o Paraíso dos glutões famélicos.

É a Consolação de quem nunca entrou num restaurante ou fast food da moda.

Assim que escurece, a Paulista torna-se a versão pobre da festa de Babete.

Na passarela da Paulista, o que temos é a festa dos camelôs.

Para desfrutar das iguarias nem é preciso dinheiro. Aceita-se passe, seja de ônibus ou metrô.

As barracas dos ambulantes são adornadas por cartazes promocionais escritos com canetas esferográficas.

Em meio a garranchos e erros de ortografia pode-se decifrar frases do tipo:

"Yakissoba só três REAL".

"Coxinhas QUENTE a toda hora".

"Na compra de UM PASTÉIS, ganhe um refrí".

"Aqui tem cachorro-quente com duas SALXIXA".

Caminhar pela Paulista entre 19h e 21h é um desafio ao olfato dos narizes mais empedernidos.

A cada passo é possível sentir aromas e odores múltiplos, como quem caminha entre barracas de uma quermesse do subúrbio.

A higiene, sem dúvida, não é o grande atrativo das barracas de quitutes da avenida Paulista.

Mas como dinheiro no bolso também não é o forte dos consumidores dessas guloseimas, ninguém se preocupa com isso.

Inclusive a fiscalização, já que a cada dia as calçadas vão ficando mais coalhadas de ambulantes do fast food.

É preciso ter estômago para andar no rush noturno da avenida Paulista.

Literalmente!


Escrito por Mucas às 12h11
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